Onde estávamos antes daqui?
Agora em meus aposentos, envolto em notas de uma sinfonia antiga (Adagio molto e cantabile), que quase me leva pra perto de um passado que não lembro agora, não nesta experiência recente, ela me atormenta de forma leve e misteriosa e me leva a fazer reflexões profundas acerca de meu paradeiro em momentos distantes desse daqui e também de minha origem, antes de minha alma habitar esse receptáculo temporário.
Onde estávamos antes de descer aqui nesta pequena e frágil jornada que fazemos de olhos vendados, sem qualquer pista ou explicações que possam acalentar essa mente inquieta e que sobrevive em luta para entender o que não se entende com os sentidos, tampouco com nossas razões deformadas, cheias de paixão, controladoras e viventes como uma tulpa?
Ainda no ventre de minha mãe, imagino uma alma dormente, recém-chegada, passiva e sem autonomia, em formação… e essa mesma forma definida por esferas superiores, rodando um algoritmo que diz à matéria como se comportar e quais formas assumir, quais combinações executar, no tempo certo, com os ingredientes certos, em um grande caldeirão de matéria, dotado de vontade sacra. Não confunda “sacra” com algo religioso, pois as coisas infinitas não podem caber em dogmas ou regras frágeis e ambíguas, dotadas de ego mortal. É sacro porque vem da lei que rege todos os seres.

Depois de toda uma sequência misteriosa de fatos que nossa ciência mais avançada de foguetes e inteligência artificial não saberia sequer começar a explicar, nem pode, essa alma dormente chega ao estado em que precisa conduzir sua própria experiência, então é tirada de dentro de seu mundo e sofre um trauma terrível de vir a ser como conhecemos, humano, e então seu pulmão cheio de líquido passa a fazer a primeira troca gasosa, e o bebê puxa o ar pela primeira vez, recebendo o Hê, o sopro da vida, o princípio vital que vem da força invisível, incognoscível. Agora tem autonomia e começa a sua busca desconhecida, até que desperte novamente e sem saber ao certo, volte para o caminho que o leva à senda, de volta aos braços do pai.
Mas gostaria de contemplar outra coisa, antes, bem antes, antes dessa alma aventureira assumir esta casca que passa de forma efêmera, onde estávamos? Pergunto, pois a alma é imortal, nada pode matar algo que não morre e sobrevive pelo tempo, algo que nunca começou nem nunca terminou, e não está à mercê do tempo nem de situações condicionais, é uma faísca da Unidade absoluta, é extensão do infinito. Não acredita? Feche o olho e tente conceber não existir, se não estiver à altura desse exercício, desça um pouco e conceba uma nova cor… difícil, não é?
Por onde andávamos? Em quais reinos? Governados por quais leis ou quais tiranias? Que forma tínhamos e como pensávamos? Como se organizava a vida e como se evoluía em meio a todas as nossas versões vividas em paralelo? Éramos só consciência? Como foi o caminho até aqui, como era no túnel da transição?
Segundo o meu íntimo, somos eternos viajantes, acumuladores de experiência, tentando voltar para casa, tentando romper as correntes que nos aprisionam a essas repetidas fases de vir a ser, e alcançar estados sem divisões, momentos completos de um ser completo que nada necessita, e por fim: ser, simplesmente ser, porque ele é.

Por fim, não saberemos até que estejamos diante do momento novamente, de novo e de novo, ou que ainda nesta experiência sejamos íntegros e de pureza tal que sejam permitidos maiores alcances, que estejamos mais lúcidos e assim ficando livres do samsara.